Contos da quarentena: a descoberta de Amanda

10/05/2020

Na sacada do apartamento ao lado, a vizinha regava as samambaias. Estavam lindas... O que era admirável, normalmente as pobres plantas morriam secas depois de um mês ou dois. A dona raramente estava em casa, parecia uma moradora fantasma. Só chegava de madrugada e isso era de vez em quando. Com sorriso tímido escondido no canto da boca, Amanda se pôs de pé e acenou para mulher, depois abraçou a si mesma e seguiu na direção da sala. Passou pela porta da varanda lembrando que outro dia quando voltava do mercado ela cruzou com Dominique. O nada simpático morador do apartamento no andar debaixo. Ele vinha cheio de sacolas. Também estava chegando do mercado, e parou em pelo menos três andares antes de chegar ao seu. Foi estranho vê-lo deixar sacolas penduradas em algumas portas. Ela pensou até em falar com o porteiro, mas acabou esquecendo o assunto. Mais tarde, naquele mesmo dia, lendo alguns avisos no grupo de mensagens do prédio, viu que o antipático vizinho tinha se voluntariado para fazer compras para quem não pudesse sair de casa durante a quarentena. Acabou descobrindo também que ele não era tão antipático quanto parecia. Só era mal compreendido, e sua aparência sisuda, contribuía muito para que as pessoas o julgassem previamente. Também naquele dia, ela descobriu que a moradora fantasma era aeromoça. Não era surpresa que as plantas morressem, Lira costumava viajar bastante e não tinha família na cidade nem amigos próximos.

A tv ligada desde cedo falava talvez pela milésima vez sobre o aumento de pessoas infectadas e mortas pelo coronavírus... Falava também da importância do isolamento para evitar o colapso do sistema de saúde... Ela já tinha ouvido aquilo tantas vezes nos últimos dias que era como se estivesse assistindo o noticiário do dia anterior. Colocou o caderno sobre a mesa de centro e pegou a xicara, levou a cozinha, e enquanto lavava, lembrou das inúmeras e repetidas vezes que sua mãe lhe pediu para fazer isso. Há pouco mais de uma hora ela tinha tomado banho... em dias normais ela nem se lembraria de tirar a roupa do banheiro, quanto mais de puxar a agua do box. Isso nunca havia passado por sua cabeça, ela que gostava da ideia de passar a vida sozinha, trancada no quarto, estava começando a sentir falta de poder andar livremente... pensava no que não daria para voltar a escola... para poder sair sem ter como destino o mercado ou a farmácia. Ainda assim, qualquer um dos dois era melhor que o hospital. Alguns já estavam parecendo uma zona de guerra, a diferença é que os combatentes nesta linha de frente não usavam armas. Não eram comandantes, generais ou soldados rasos. Eram pessoas comuns. Pessoas que trabalhavam como auxiliares de limpeza, enfermeiros e médicos, como Eliza, sua mãe. Amanda já não tinha notícias dela há quase três dias. Sentia falta dos conselhos, às vezes, dado aos berros... da implicância... das brigas... a verdade é que a relação entre as duas sempre foi um pouco difícil, e ficou pior depois do divórcio. Amanda não reagiu muito bem a separação dos pais. Tinha verdadeira adoração pelo pai, e por isso, passou dias sem falar com a mãe depois que ele saiu de casa. Se ela ao menos soubesse naquela época o que sabia agora, as coisas teriam sido diferentes. Custou a acreditar que tinha sido tão ingênua: durante tanto tempo crucificou sua mãe pelo divórcio e mal podia imaginar que ela, na verdade, tinha sido a vítima na história toda... Seu pai, o grande Paulo, estava traindo a esposa com a secretária de vinte e dois anos, e queria que Eliza saísse do apartamento para que ele pudesse se instalar com a amante. Houve até uma ação judicial. Legalmente, Amanda era a dona do apartamento, mas sendo menor de idade, o bem passaria às mãos de quem possuísse a guarda dela. Na época até achou que o pai realmente a quisesse por perto e pensou que poderia ser bom ficar longe da mãe por uns tempos, se ao menos tivesse usado a cabeça... A confissão naquele caderno era algo bizarro. Uma prova irrefutável da frieza dele e da sua total falta de nexo. Estava esquecido em uma gaveta na estante da sala. Aquilo a fez pensar: que tipo de homem faz um diário de suas bravatas? Não um tipo normal. E em pensar que foi encontrado ao acaso. Amanda estava apenas procurando um livro para se distrair. Depois de ler, chegou à conclusão de que ainda que vivesse mil vidas não seria capaz de reparar toda a injustiça que havia cometido com a mãe. Só esperava ter a chance de lhe dizer isso, foi quando a porta da sala se abriu, e por ela, passou Eliza: descalça... cheirando álcool e remédios, parecia um tanto aérea. Era quase como se não acreditasse que finalmente estava em casa. Seu rosto carregava as marcas do cansaço e dos equipamentos de proteção. Olhou para o caderno sobre a mesa, depois olhou para a filha. Amanda não disse nada. Apenas fixou os olhos nos lábios da mãe enquanto ela sussurrava: eu sinto muito por isso.